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19 de novembro de 2014
Sobre o "ter mais de 30"
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| Fonte: Tips From Real Housewives |
Na maravilhosa música do grande Marcos Valle, “Mais de 30”, ouvimos repetidamente: “não confie em ninguém com mais de trinta anos...”. E isso aterroriza alguém que JÁ passou dos 30.
Quando esse texto for divulgado, terá passado mais de uma semana que este ser que vos escreve completou 32 anos. Soa assustador. E é. Mas vamos analisar sobre isso.
Até os 19 anos, pensamos ter a vida toda pela frente... é quando bebemos até cair; namoramos, ficamos curtimos tudo e todos; é quando você se sente no direito de errar e pensa que o Universo lhe deve uma recompensa, mesmo que o errado tenha sido justamente você! Se acha invencível, ainda mais se passar no vestibular. O mundo é meu, pensamos.
Chegamos à casa dos vinte e as coisas mudam. Você está se formando; você começa a trabalhar; você tem contas sérias (não apenas contas de bar e balada, mas aluguel, seu carro, sua compra do mês, suas roupas, calçados, você passa a bancar seus cursos e viagens...). Alguns casam, outros têm filhos... a visão de mundo muda, mas ainda temos vinte e poucos anos e o sentimento de poder errar ainda nos toma. Pensamos, sério!, que ainda temos todas as chances do mundo: se eu quiser mudar de emprego sem ter outro em vista, eu posso; se eu quiser abandonar esse curso e começar outro, eu posso; se eu não gostar desse apartamento, eu saio, eu posso. E chegamos aos 30. No meu caso, passei dos 30. Quando temos nossos vinte e poucos anos, há um peso inconsciente desse número: 30.
Trinta, dizem, é a idade do sucesso. É quando você se sente bem com seu corpo (ou deveria); é quando você se estabiliza no trabalho ou numa profissão (ou deveria); é quando você sabe exatamente o que quer da vida (ou deveria); é quando as coisas parecem fazer mais sentido (ou deveria).
Quando cheguei aos trinta, muita coisa havia acontecido em minha vida: perdi meus pais; perdi várias oportunidades de emprego; mudanças; saudades; tantas coisas que me sentia anestesiado para esse “peso”: decidi, de corpo, alma e coração, não me delegar esses “pesos”; não me importa o sucesso profissional (deveria?); não me importa o tal corpo perfeito (deveria?); não me importa se as coisas fazem sentido ou não (deveria...). O que eu sinto agora é uma imensa vontade de, realmente, lutar por meus sonhos e objetivos; cuidar de minha saúde; cuidar do meu amor e de nossa casa; escrever sempre sempre e sempre mais e mais e, sim, buscar minhas certezas, se é que elas existem e creio cada vez mais que não.
Eu me recuso, ao chegar aos 32, com todos os rótulos impostos. Porém, eles estão atrás de mim. Como sempre, pareço perdido e resolvo fazer mais um texto que parece contraditório do início ao fim, mas é assim que me sinto aos 32: contraditório. Quero as baladas, mas quero ficar em casa lendo e vendo séries e filmes. Quero construir o tal corpo perfeito, e também acho sensualíssimo um corpo dito “normal”. Quero mudar, viajar, voar, voar... subir, subir... mas também bateu uma vontade de construir raízes. O que fazer então?
Devemos confiar em alguém com mais de trinta? Sabendo ou não o que se quer; tendo ou não seu sucesso alcançado; fazendo ou não o que se quer. O que importa nesse momento, é ficar em paz consigo mesmo. Independente de sua idade.
Hoje, ainda me permito errar. Mas agora com mais medo. Antes, me sentia no direito de errar. Hoje, com tantas lições e tapas da vida, sinto que é preciso cautela. Não existe o direito de errar, mas a obrigação de não repetir velhos erros.
Isso que dá ter mais de trinta!
“Eu meço a vida nas coisas que eu faço
E nas coisas que eu sonho e não faço”
(Marcos Valle – Com Mais de 30)
24 de agosto de 2013
A Porta
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| Fonte: Mundo das Dicas |
Viver numa cidade como São Paulo tem lá seus encantos e seus temores. Quando digo que adoro viver aqui, confesso que, por vezes, bate aquela vontadinha de pegar minhas coisinhas, meu amor e partir pra qualquer outro lugar.
Tem trânsito sim, tem correria insana sim, tem violência sim, mas também suas belezas que, por vezes ficam tão bem escondidinhas que é preciso um susto, uma surpresa para que consigamos perceber que ela existe sim, mesmo numa cidade chamada de “Selva de Pedra”.
Acordar atrasado já é um baita pé no saco porque o tempo que já passa tão rápido triplica de velocidade e você precisa dar conta de cinquenta mil coisas em um tempo que... opa, já passou!
Aí você corre para o ponto de ônibus que também chega atrasado. Vai andando bem, que bom!, mas até certo ponto, já que, dali pra frente as coisas ficam estagnadas. Trânsito travado, Brigadeiro nada doce, Paulista nem tão iluminada quanto suas noites extensas e frias, e ela nunca chega (nunca chega, bendita Paulista!).
Mas eis que horas depois, chego ao ponto de destino. Nervoso, estressado, atrasado, o dia prometia ser daqueles para se esquecer até que paro em frente à porta para descer.
Olho para a porta antes de ser aberta e vejo um adesivo branco grudado na porta, abaixo do vidro, escrito à mão, em vermelho: “AMO VOCÊ”.
Não sei explicar. Simples assim, “AMO VOCÊ” e o dia se fez clarear. Um sorriso brotou, uma felicidade invade e eu penso: quanta beleza e poesia. Sim, essa cidade esconde essas coisinhas que reconfiguram seu dia. Infelizmente, achamos essas surpresas sempre no susto. Ou será que só nos falta um olhar mais profundo e atento?
17 de agosto de 2013
A Morte e a Donzela
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| Fonte: Getty Images |
Esses dias, algo me chamou a atenção. Morria Margaret Tatcher, chamada de Dama de Ferro pelos britânicos. Margaret foi Primeira-Ministra da Inglaterra por anos, e, com a mesma intensidade com que foi amada, foi igualmente odiada. Ela foi o símbolo máximo de poder, para o bem e para o mal.
Desenvolveu políticas ultraconservadoras e polêmicas. A classe baixa saiu perdendo em muitos momentos (não, não é só aqui que isso ocorre!), e teve seu ápice de poder, amor e ódio na Guerra das Malvinas, onde mandou explodir um navio argentino que estava fora da área pertencente à Inglaterra. História à parte, o que me chamou a atenção não foi sua morte em si (isso também, mas falarei mais adiante), mas foi a maneira como o mundo recebeu a notícia.
Confesso que achei até discreta sua partida para quem representou tanto amor e ódio. Mas a reação foi essa mesma: estava com idade avançada e com demência. Li textos com chamadas como: morreu com o que sempre teve: demência. Ou coisas como: já vai tarde, e seus derivados.
Ao acompanhar os últimos anos de Tatcher (porque ela nunca deixou de ser notícia), há um indício de pena. Pena sim. Há discussões diversas sobre ela ter sido uma grande líder ou uma pessoa detestável, fria e calculista. Não tenho embasamentos profundos para tomar partidos, mas foi a ideia de pena que me chamou a atenção.
Uma senhora, senil, demente, com várias dificuldades físicas e mentais. Podemos dizer: coitada. Mas vi uma foto tirada meses antes, no qual Tatcher mira a câmera no exato instante do clique e eis que há, nítido, o olhar daquela que foi temida e respeitada. O olhar penetrante. O mesmo olhar com que enfrentou tudo e todos com uma teimosia desastrosa e doentia. Aquele olhar... aquele olhar... e ai pensei em Cazuza quando cantava: “Meus heróis morreram de overdose... os meus inimigos, estão no poder!”. Cazuza veio a calhar pois pensei no “inimigos”. Aqueles contra quem lutamos, brigamos, exigimos justiça... esses são liderados pelos mesmos homens que foram prejudicados anteriormente. E, por quê? Porque temos essa sensação de pena, que já estão velhos, doentes, dementes, que não vale a pena remexer em crimes antigos. O que acontece em Vegas, fica em Vegas, não é mesmo? Mas não, é preciso se fazer justiça sim, e exigir que os crimes sejam pagos.
Mas não. Não fazemos isso. Não fazemos porque somos tomados por essa sensação de descuido com nossa História e nossa memória. Somos displicentes com todas as coisas que nos ocorrem seja a política, seja a saúde, seja o Planeta e adjacências. E quer saber? Ela estava tão velhinha mesmo!
Morrissey, brilhante cantor, ex líder do The Smiths, era um opositor ferrenho de Tatcher. E foi dele, figura mítica na música inglesa (e mundial), a manifestação mais elegante sobre a morte de Tatcher. Seu texto não redime Tatcher e nem contraria toda a postura do artista sobre a “ditadora”, mas expressa esse mesmo sentimento de pena. Morrissey afirma: “Tatcher não tinha nem um átomo de humanidade”, ele não diz “Viva” para sua morte. Ele lamenta, lamenta pelas injustiças que foram enterradas juntas, ele lamenta as dores sofridas enterradas juntas, ele lamenta toda uma geração de crianças, jovens, pais, avós que perderam esperanças, que foram prejudicados, que morreram sem ter um resquício de sol na gelada Inglaterra. Ele lamenta o que se foi antes da partida dela. Ele lamenta toda essa angústia guardada desde os tempos em que pensávamos que poderíamos mudar o mundo.
O que dá pena, o que lamenta Morrissey, e o que eu lamento agora, é isso. Perceber que, independente de tudo o que foi feito, chorado e lutado, os inimigos morrem dementes, e as dores são foram aplacadas. Sensação de injustiça, não com eles, mas conosco. Os que ficaram? Não terão mais com quem lutar. Mas levarão consigo o mal que foi deixado. Há como se redimir ou se libertar?
Este texto pode parecer ambíguo. E é essa a intenção. Ambíguo ao ver a velha senhora demente. Ambíguo ao ver que seu olhar continuava o mesmo de décadas. Penetrante e amedrontador. Pena ou medo? O tempo pode realmente aplacar certas dores?
E a cova? Sete palmos pode não ser o suficiente. Nunca é.
10 de agosto de 2013
O Eterno Peso da Mente
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| Fonte: Arquivo Pessoal |
Recentemente, vi um post de minha grande amiga Thaís, que comanda de forma tão linda esse blog, sobre seu peso. Há pouco tempo também, eu mesmo publiquei aqui sobre um regime.
Antes, esse regime havia sido mental e espiritual. Também físico, mas, antes do corpo, pensei em me livrar dos papeis, de objetos e roupas que simplesmente não me pertenciam mais. Somos assim: após um tempo de caminhada nesse mundão de meu Deus, acumulamos uma bagagem de experiências e tranqueiras. Coisas essas que não nos acrescentam mais: papeis de bala, folders coloridos que guardamos porque são bonitinhos, envelopes nunca endereçados, pastas e mais pastas de contas pagas há mais tempo que o recomendado, ou seja, as tralhas nossas de cada dia que, justamente por nossas insanas correrias, acumulamos e não encontramos tempo para nos livrarmos e ficarmos mais leves.
Então, li o post e fiquei tocado. Conheço a Tha (como carinhosamente a chamamos) há quase dez anos e sei do quanto esse ser aí é maravilhoso.
Quero dizer aqui Tha, publicamente, como admiro e sempre admirei sua força de vontade. Estou também nessa luta de deixar de lado o que gosto, mas, que nem sempre é positivo, para atingir um objetivo maior.
Com o tempo (e milhares de quilômetros em esteiras e centenas de abdominais), percebemos que toda aquela ânsia por nos satisfazer, na verdade não satisfazia nada: sequer preenchia um vazio. Somente nos fazia culpar algo inerente a nós: por quê? Por quê? Por quê? Quando saímos dessa zona de conforto em nos culpar e passamos a fazer algo por nós, a visão de mundo muda: muita gente pode, eu também, e vou!
E é nessa pegada que a gente começa, passo a passo, um de cada vez, a construir nossos pequenos grandes sucessos: um quilo a menos, um curso terminado, uma conquista profissional, e por ai vai.
Temos que acreditar e lutar. Fácil? Nunca foi e nunca será, mas estamos a caminho. O mais importante é vencermos os fantasmas dentro de nossas mentes. Esse sim é o que nos dá peso e medo. Quando vencemos essa barreira, tudo parece mais claro e duradouro, é como se não existissem mais amarras!
Thá, estamos ai contigo, menina! Força sempre! E sempre parabéns!
3 de agosto de 2013
O Papa quer ser Pop?
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| Fonte: Google Imagens |
Estava vendo algumas coberturas pela televisão sobre a visita do Papa Francisco aqui em nosso país. Devo confessar, antes de tudo, que não sou católico, nem tão religioso quanto eu gostaria. Mas cresci sobre crenças fortes e demonstrações presenciais de alguns “milagres”, o que reforça meu respeito por tudo e todos.
Tenho, por mim mesmo, um pé atrás com muitas coisas. E, quando foi anunciado o novo Papa, com todo aquele carisma e benevolência, também fiquei desconfiado. Bem apropriado para a Igreja reconquistar fieis a essa altura do campeonato.
Porém, o tempo foi passando (nem tanto assim), e percebi o quanto do que eu pensava se revelou concreto e o quanto foi desfeito. As reformas propostas, suas falas firmes, sua postura ante a Igreja são, no mínimo, corajosas.
Ao assistir sua entrevista ontem no “Fantástico” me peguei pensando nisso o tempo todo: estava ali um homem que, em nenhum momento falou em Deus ou Jesus; não falou em religião ou da Igreja em si; não fez pregações, não impôs nada, simplesmente falou de união, de força, de humildade, de fraternidade. Muito do que eu acredito estava naquelas palavras não direcionadas para um grupo ou outro, mas, para todos.
Suas palavras sobre a juventude e os idosos foram as mais tocantes: se não damos base aos jovens e, se não respeitamos os mais velhos (que passam a sabedoria aos mais novos), então, tudo se desfaz, não há construção, não há crescimento.
Reforço: não mudei convicções, nem passei a aceitar toda uma história de tragédias, abusos, roubos e tudo o que sabemos (ou ainda descobriremos). Mas, se o início de uma reforma, não da Igreja, mas da humanidade precisa de um começo, que seja o da união então, do diálogo, da compreensão e da humildade.
Pedir para que a Igreja abrace seu povo e pedir menos riqueza e ambição foi corajoso. Se ao menos alguns poucos ouvirem e acatarem seus preceitos, terão enfim, começado a tal reforma.
Não mudou minha vida, mas ganhou meu respeito.
15 de junho de 2013
Elena e as memórias sentimentais e familiares
Sim, estive sumido nas últimas semanas e me desculpo. Mas a tal limpeza sentimental que havia comentado num dos últimos posts, tomou uma forma bem maior que a esperada.
Sacos de lixo depois, alguns quilos a menos e um certo peso aliviado, me fizeram respirar fundo e voltar ao dia a dia de sempre. Mas olha que interessante: de repente a rotina não me assusta mais. Fazer os mesmos caminhos, falar as mesmas palavras, pensar os mesmos pensamentos... opa, ai me bateu o medo: devemos temer a rotina a ponto de mudarmos tudo em nossas vidas? Em que momento um fato de nossa história ganha contornos tão palpáveis, que é impossível fugir dele, e cuja única opção é tentar enfrentá-lo?
Essa semana fui assistir a um documentário nacional que está dando o que falar. Muita, mas muita gente tem ido aos cinemas assistir “Elena”, o que é fantástico por dois motivos: primeiro, as pessoas estão fazendo filas para ver um filme nacional; segundo: esse filme é um documentário, gênero difícil de fazer muito sucesso aqui em nossas terras (e em outras também).
“Elena” conta a história de Petra, irmã de Elena, que parte em busca de uma resposta, para preencher uma lacuna que jamais se completará: sua irmã teve um destino trágico, e ela quer entender ao menos o caminho que a levou até esse fim.
Elena sempre quis ser atriz e, com essa pretensão, parte para Nova York para fazer um curso de interpretação, após alguns trabalhos aqui no Brasil. Após idas e vindas, sua mãe e sua irmã, Petra, então com sete anos, partem para Nova York para ficarem junto de Elena. Envolvida num turbilhão interno de sentimentos mistos e nunca externados, Elena encontra um fim trágico. A partir daí, a vida de Petra e de sua mãe começam a girar em torno dessas lembranças, dessas reticências, dos eternos porquês.
Juntando vários vídeos e documentos familiares, entrevistas e fotos, Petra tenta montar um mosaico sobre quem era essa mulher, sua irmã, sua musa. Quem teria sido Elena? E, o quanto de Elena está em Petra? Teriam as duas os mesmos destinos? A mesma sina?
É o que se pergunta Petra com esse documentário que, ao final, com todos os pormenores e ações duvidosas (falando em termos de linguagem cinematográfica e narrativa), deixa um nó na garganta infinito, uma interrogação, uma pergunta no ar, cuja resposta jamais poderá ser descoberta ou entendida.
Tive a impressão que o filme é como aquela lembrança melancólica, aquela memória familiar que nos deixa tão tristes, porque sabíamos felizes. É aquela lembrança de um momento que se foi e não volta; de pessoas tão amadas que partiram, às vezes, sem tempo de acenar ou dizer adeus.
Resta-nos tentar compreender. Ou não.
11 de maio de 2013
Coma, reze, ame e veja!
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| Julia Roberts em "Comer Rezar Amar" |
Já fiz muita coisa nessa vida. Parece música não é mesmo? Em uma dessas andanças, fui livreiro na Saraiva de Ribeirão Preto. E estava lá, exatamente quando surgiram alguns best-sellers recentes: a Saga Crepúsculo, A Menina que Roubava Livros, O Caçador de Pipas e, este Comer Rezar Amar, de Elizabeth Gilbert.
Confesso, sinceramente, não ter lido quase nenhum deles, me perdoem, mas muitos foram por puro preconceito mesmo, aceito algumas crucificações!
Porém, por conta de uma grande amiga, fui ter com ela no cinema justamente a adaptação de um desses best-sellers: Comer Rezar Amar, com a mulher sorriso Julia Roberts. Sim, estava com um pé atrás afinal, adaptações literárias de grandes sucessos, GERALMENTE costumam não ser lá grandes coisas. Mas sentei e vi 140 minutos de um filme deslumbrante!
Não, não e não. Este NÃO é um filme de, ou para mulherzinhas, e muito pelo contrário, os marmanjões também poderão chorar, ou ao menos se emocionarem. É o tipo de filme que envolve e faz vibrar.
Elizabeth (Julia Roberts) tem sucesso em sua profissão, bem casada, com um marido amoroso, mas sente-se infeliz em sua incompletude existencial. Decide largar tudo e partir para uma viagem de um ano para redescobrir seu prazer pela gastronomia (Itália), redescobrir-se na reza (Índia) e voltar para rever seu guru, e, conseqüentemente, se apaixonar (em Bali).
Há diversos fatores positivos no filme: a trilha sonora impecável, daquelas para se comprar após sair do cinema, a fotografia exuberante, que passa todos os sentimentos explosivos de Elizabeth, especialmente na melhor parte do filme, a italiana. Sem contar as ótimas interpretações de Viola Davis, Richard Jenkins (excepcional!), James Franco e do comovente Billy Crudup.
Sim, sim, apesar do portunhol, Javier Bardem, que interpreta um brasileiro está bem e Julia Roberts está ótima, despida das caretas e das lágrimas fáceis. Com todos esses ingredientes, ela conduz os 140 minutos de filme de forma absoluta. Ela nos envolve e nos leva a todas as transformações de sua personagem de forma delicada e gentil.
Eddie Vedder encerra o filme com uma música matadora (mais uma!) e sim, saímos do cinema com lágrimas nos olhos (nenhuma lágrima gratuita) e um sorrisão dignos daqueles da eterna Linda Mulher!
Citei a melhor parte do filme, a italiana porque a gastronomia nos permite descobrir sentimentos adormecidos: o cheiro de um prato, de um tempero, nos faz vibrar, arrepiar os pelos do corpo, transcender! E, uma mulher com seus quarenta anos, partindo em busca do desconhecido, deixando toda uma vida de segurança e prosperidade para adentrar em um universo paralelo, antes tido como inexistente: o universo dentro de nós e essa força imensa que pensamos não existir, mas que, vez ou outra brota de forma a nos lembrarmos que estamos vivos e que somos e sempre seremos donos de nosso próprio destino.
Esse filme já está disponível em DVD, mas me lembrei dele esses dias, quando, em frente a uma pizza maravilhosa, tive o estalo: me arrepiei ante àquela maravilha. Sério, foi uma experiência maravilhosa: ver, sentir, me arrepiar e comer rezando!
Nós escrevemos nossa história. Elizabeth aprendeu direitinho a lição!
27 de abril de 2013
A volta e o futuro
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| Fonte: Salon |
Voltei a estudar. Que maravilha isso, não é mesmo? Há uns três anos que sou professor e fico sempre de frente para a turma. Já faz uns bons anos em que eu estava no lugar deles e isso me deixou um pouco perplexo. Sim, essa é a palavra correta, perplexo. Meu olhar sempre centralizado naquelas figuras maravilhosas, os Mestres! E agora, estou aqui, de frente a eles, mas tenho a possibilidade de visualizar os rostos, os olhares, as expressões... todas!
E eis que volto à cadeira que ocupei há alguns anos, o de aluno. Que surpresa! Que coisa nova, parece! Não sei dizer ainda se é por estar estudando um assunto que tanto amo (os roteiros de TV e cinema), mas tudo parece novidade. E que bom! Chego com os olhos de novidade, olhos de curiosidade, olhos de possibilidades e, assim, nessa posição, posso novamente sentir o gosto incrível das descobertas, das coisas que ainda não entendemos bem, do prazer de nos sentirmos possíveis, nos sentirmos com possibilidades.
E assim, também é possível entender melhor os alunos... por esses dias, formamos mais alguns grupos de profissionais e, ouvir de alguns deles que foi você o responsável pela realização de um sonho deles, é de chorar de felicidade e esperança. Não esperança num futuro melhor, esperança de um mundo melhor, isso tudo sim, também, mas a esperança de que os esforços não foram em vão, esperança de que temos muito a acrescentar, esperança de que também encontraremos muitos seres essenciais em nossas formações, não apenas acadêmicas, mas na vida em si.
Há vida!
20 de abril de 2013
O Regime Ideal
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| Google Imagens |
Decidi fazer um regime. Sempre fui muito magro, mas, de uns meses pra cá tenho me sentido muito pesado.
E esse peso vem me acompanhando já há algum tempo. Tentei me acostumar com um peso acima do que eu sempre tive. Amarrar os sapatos, correr ou até mesmo caminhar, tava difícil, viu!
Parei, há mais ou menos um mês e decidi fazer o tal regime, mas pensei: como farei? Não encontrei nenhuma receita que pudesse “servir” em mim. Li, procurei, pesquisei, perguntei, mas nada: nenhum lugar, ninguém nada poderia me ajudar. Não havia receita, endocrinologista, nutricionista, nada. Nada.
Curioso, parei para pensar: a resposta está dentro de você, no caso, de mim. Então, percebi exatamente o que deveria fazer para perder os tais pesos, os tais quilos. Comecei me livrando do que eu carregava: papeis desnecessários, escritos ruins, diários que não levavam a lugar nenhum. Corri com os sacos de lixos, me desfiz desses quilos.
Depois, comecei a correr para me livrar das roupas velhas, pequenas, dessas que, de tanto uso já não se sabe o porquê mantê-las. E o mesmo foi feito com os livros. Mas esses eu não joguei fora. Doei, repassei. Existem aqueles que de tanto ler e rever, já fizeram o efeito que deveriam fazer e agora estão prontos para fazer o que deve ser feito para outros olhos e almas.
E, por último, ainda estou revendo os sentimentos desnecessários. Algumas dores que já deveriam ter passado, estão sendo analisadas para serem descartadas. Algumas lembranças que já me fizeram crescer e não precisam ser continuadas. Esses pesos ainda estou tentando perder.
Mas, no geral, acho que estou indo bem em meu regime. Estou descobrindo a receita ideal, mas acredito estar no caminho certo. Como já disse, o peso material está indo bem. O peso interno ainda está em processo.
Alguns quilos, perdi com sucesso. Outros, precisarei de várias horas na esteira.
6 de abril de 2013
À Mestra com Carinho
Essa semana, não apenas a área da Biblioteconomia, mas o mundo ficou mais triste: partiu Maria Helena, uma profissional impecável e brilhante, mas mais que isso: uma pessoa íntegra, amorosa e inesquecível.
Quando entramos na faculdade, passamos, rapidamente, por uma transformação radical, como se ontem fôssemos jovens, filhos, e descompromissados, para adultos, donos de si e cheios de trabalhos, pesquisas, estágios e muito sono. Quando se faz essa passagem, para muitos, dolorosa, é preciso encontrar algo em que se apoiar. Ou alguém.
Aí aparecem os amigos. Os de sempre com a gente, e os novos chegando. Mas, mais que amigos de classe, de trabalho, de infância ou de bar, existe um outro tipo de amigo. O amigo Professor, o amigo Mestre. Temos o amigo Professor, aquele em quem podemos contar, aquele que nos ajuda, aquele que nos acrescenta. Mas existe o amigo Mestre.
O Amigo Mestre é aquele que, mais que ensinar conceitos, nos apresenta ao mundo, nos abre a mente, nos coloca diante de coisas e fatos que artigo científico nenhum apresenta; introduz uma diversidade de ensinamentos para a vida, nos aconselha, nos acolhe, e também puxa muito nossas orelhas, porque sabe que, muitos os têm como figuras de pais substitutos, como aquela pessoa que nos ensinará a andar, mas o andar diferente, o andar pensativo, estudado, articulado, o olhar acadêmico, o olhar direcionado, visto, revisto, rebatido, analisado, esmiuçado, transformado; o olhar e a ajuda de quem nos insere a um outro mundo: o das palavras, o do saber.
Sim, os pais fazem isso com a gente também, mas o Professor, o Mestre parece nos levar a um mundo paralelo, com tantas descobertas como quando começamos a descobrir que o Universo é bem maior que nosso berço.
Tive a honra de ter muitos Mestres. E a senhora, Mestra Maria Helena, é dessas que pegou em nossas mãos, e nos fez viajar a esse Universo paralelo, cheio de ternura, estudo, carinho e solidariedade.
Em nosso último encontro, num evento da área, após tantos anos de formado, você segurou em minhas mãos e disse: “Eu vim até aqui porque vi seu nome entre os participantes. Não poderia perder essa chance de ver você brilhando!”
E mal tive chance de dizer a ela que esse brilho, quem deu uma bela lapidada, foi a Senhora, Mestra!
22 de março de 2013
A arte de seduzir pela amizade
Quando criança, aposto que muitos aqui presenciaram uma reunião de mãe, tias, avós e vizinhas a discutirem os mais variados assuntos, desde os problemas familiares (algo como: “- Olha o que a Maria tá passando na mão do Juvenal, tá fácil pra ela não, amiga!), e entre outras tantas... as novelas (a mocinha sempre é criticada por não sentar a mão na cara da vilã), o clima (nunca chove, né? Mas quando vem chuva, vixi!), a cidade em si, e receitas, das mais variadas e com várias formas de se fazê-las (se for na forma redonda, leva meia hora, mas se for na quadrada, no mínimo 45 minutos!; não deixa ninguém por a mão não, senão desanda!)
Mas o mais curioso era observar a cerimônia em si: o ato de contar, de falar. As expressões, os vestidos, as cadeiras reunidas, os cheiros, o café saindo fresquinho e a pasmaceira de uma tarde quente, esperando que se cumpra mais um dia nessa jornada tranquila e feliz.
Mas, há esqueletos nos armários e muita coisa fica subjetiva, escondida. É assim quando iniciamos uma das mais prazerosas, divertidas e sensíveis jornadas da história do cinema: Tomates Verdes Fritos (Fried Green Tomatoes At The Whistle Stop Cafe) começa angustiante: Evelyn é uma dona de casa que não é notada por seu marido (e ela se esforça MUITO para isso!), afoga suas mágoas comendo doces. Semanalmente, vão visitar a tia de seu marido, internada em um hospital. A tia nunca permite que Evelyn entre no quarto. Sentada na sala de espera (comendo vários chocolates), Evelyn se surpreende com a chegada de Ninny, uma simpática senhora de 83 anos que aceita um dos chocolates de Evelyn e começa, ali, narrar a história de uma bela e inesquecível amizade: a de Idge e Ruth e todas as pessoas que gravitam em torno de duas forças da natureza. Enquanto as semanas sucedem-se, Evelyn descobre dentro de si, por conta dessa amizade com Ninny e dessas histórias de Idge e Ruth, a força que precisa para dar uma guinada em sua vida.
- TAWANDA!!!! – grita Evelyn, aliás, não grita: explode numa atitude surpreendente de felicidade e liberdade transformadora.
Transformados ficamos nós também, levados há um tempo em que não nos preocupávamos com o futuro. Queríamos apenas ouvir as conversas, sentir o cheiro de café e bolo, correr e brincar, sem perceber, ali, que tudo estava se transformando, que nada volta e que, por mais que possamos tentar nos livrar de certas passagens e acontecimentos, existe algo dentro de nós que não se apaga: a vida!
Tomates verdes fritos é um prato típico do sul dos Estados Unidos. Também é o prato principal servido no Whistle Stop Café onde Idge e Ruth servem toda a população, pobres e negros, o que desperta grande desconfiança e ódio de muitos (a história passa-se em 1930, imaginem!).
Façam um bom café, um bolo de fubá ou coco reúnam as comadres, e deixem as crianças sempre por perto: uma delas levará essas lembranças, e perpetuará a memória ficada pra trás numa tarde quente e agradável.
Receita de tomates verdes fritos:
4 tomates
2 ovos batidos
1/2 xícara (chá) de leite
1 xícara (chá) de farinha de trigo
1/2 xícara (chá) de fubá
1/2 xícara (chá) de farinha de rosca
2 colheres (chá) de sal
1/2 colher (chá) de pimenta-do-reino branca
Corte os tomates em fatias, da largura de um dedo. Num prato, misture os ovos e o leite. Em outro prato misture a farinha de rosca e o fubá, temperando com sal e pimenta.
Passe o tomate na farinha de trigo, depois, nos ovos com leite e passe na farinha de rosca com fubá.
Frite em óleo quente até dourar.
Trailer do filme:
16 de março de 2013
Uma festa refinada
Passei a semana pensando em como falar de um filme muito especial, e me lembrei de uma aula na faculdade, onde um queridíssimo professor de Literatura e Lingüística instigou os alunos com a seguinte fala: Deveriam proibir a leitura de Machado de Assis antes dos 18 anos ou mais.
Intrigados, perguntamos o porquê, já que Machado é um dos maiores escritores mundiais, orgulho nacional! Ao que ele responde:
- Machado é para ser degustado. É preciso ser um gourmet para isso. Antes dos 18, 20, 30 anos, somos apenas gourmand.
E isso me perseguiu durante esses dias. Buscando os significados para cada expressão, encontrei sutilezas entre os conceitos. No geral, gourmand é aquela pessoa que come por prazer, porque gosta do ato de comer em si. O gourmet é a pessoa que busca a degustação, o refinamento, a boa comida, sentir o aroma, sentir cada gosto, quase como uma experiência ao comer.
O que, automaticamente remeteu ao filme A Festa de Babette (Babettes gæstebud), um filme dinamarquês de 1987, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Na história, a misteriosa Babette, fugindo da França, chega a uma pequena vila na Dinamarca e é acolhida pelas duas filhas do rigoroso pastor local. Alguns anos depois, ela ganha na loteria e decide preparar um grande jantar para os habitantes do lugar em comemoração ao centenário do pastor.
Os habitantes ficam apreensivos e temerosos, afinal, aceitar um jantar preparado por uma francesa, poderia ser um pecado dos grandes! Mas Babette, tão bem acolhida pelas pessoas do vilarejo, quer retribuir de alguma forma. Compra então, as mais variadas iguarias para o tal jantar. Quer que eles tenham essa experiência de gourmet, sentir o verdadeiro sabor das coisas, ter esse prazer despertado, fazer, através das comidas e bebidas, com que tenham uma experiência quase divina e que sim, poderiam chegar aos céus não só pela reza, mas também pelo despertar dos sentidos, e ter um encontro com algo que nunca sentiram: o prazer da degustação.
Belíssimo filme, A Festa de Babette nos leva a um mundo em que, por vários motivos, acabamos deixando de lado, e não somente da comida, mas num todo: o prazer de saborear cada palavra de Machado; o prazer de acompanhar cada riso de nossos filhos, sobrinhos; o prazer de cheirar uma flor; o prazer de se pegar, por vezes quase como um pecado, um segredo, um desvio, se deliciando, somente com o fato de estarmos vivos.
9 de março de 2013
A Estréia
Quando minha grande amiga Thaís e eu combinamos de eu escrever uma coluna no blog, fiquei pensando no melhor texto para uma estréia. E me lembro de quando apresentei minha primeira peça de teatro: havíamos ensaiado por algumas semanas e havia chegado a hora. Respira e vai. Respirando fundo, escrevo essas palavras para todos. E vou. E vamos!
Pois bem, em meio à tarde chuvosa, dei uma fuçada no Brincando de Cozinhar e Cia, e me lembrei das primeiras vezes que entrei nele. E a forma tão bonita e aconchegante que a Thaís trata dele, nos faz sentir como crianças, observando nossas mães, tias e avós fazerem as maravilhas que nos deliciavam e nos fazem trazer as lembranças até hoje e para todo o sempre.
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| Fonte: The Simpsons |
Via minha mãe, pai, avó, avô prepararem quitutes dos mais variados em dias chuvosos, em dias ensolarados, em noites especiais, em Natais inesquecíveis... mas aí vem o tempo, as lembranças perdem-se, algumas pessoas seguem outros rumos, outras vão morar com o Papai do Céu e o que fica são as mais maravilhosas lembranças, as saudades infinitas e, tão mágico quanto Amelie Poulain, conseguimos resgatar isso por conta de um cheiro bom de bolinho, ou enfiando a mão em imensos sacos de grãos... como é bom, não é mesmo?
A comida tem esse dom... toda a cerimônia do preparo, os cheiros, tão particulares de cada tempero, de cada bebida, de cada coisa pronta, e a água na boca, e o suor nas mãos do esperar, do chegar e do comer. E como é maravilhoso perceber as coisas entrelaçadas. São gostos, cheiros, sabores e uma vida inteira de lembranças e saudades.
Todo domingo cedo em casa tinha um rádio tocando músicas das mais variadas. Podia ser macarrão com frango assado. Ou o preparo de uma feijoada. Ou a espera por amigos e familiares para um churrascão, não importa.
Toda vez que eu me deliciar com uma carolina, lembrarei do Natal, eu com cinco anos de idade. O pai se fazendo de Papai Noel, a mãe e as tias arrumando a gente, e a festa linda e inesquecível porque estávamos unidos por algo: uma mesa, um sentimento, e as saudades, presente desde então.
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